A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Oliveira do Hospital celebrou, este domingo (22), o seu 104.º aniversário com uma sessão solene, onde o conjunto de intervenções refletiu os desafios estruturais que hoje atravessa o setor dos bombeiros em Portugal.



Depois da bênção do novo veículo da corporação edas habituais promoções e condecorações, a cerimónia solene serviu de palco para uma reflexão coletiva sobre o presente e o futuro de uma instituição com mais de um século de serviço à comunidade.
Na ocasião, o presidente da Direção, Arménio Tavares, destacou o dinamismo interno da associação, evidenciando o papel crescente das estruturas mais jovens. E porque “num corpo de bombeiros, um dos pilares fundamentais é a área das comunicações”, o responsável deu particular ênfase à aquisição de “dois sistemas via satélite, um fixo e outro móvel”. A estes meios juntou-se recentemente um novo reforço, “uma unidade via satélite Starlink” entregue pelo Município. Também a autarquia em entregou “96 Equipamentos de Proteção Individual”.
Arménio Tavares abordou ainda a sustentabilidade financeira, alertando que “a tesouraria dos corpos de bombeiros portugueses está seriamente ameaçada de colapsar”, fruto “da crise energética” que se traduz num “crescimento mensal de despesas da Associação na ordem dos 1.800 euros”. Nesta senda, lançou um apelo à Liga dos Bombeiros Portugueses, defendendo que “é hora da Liga clamar do Governo uma generosa compensação”.
Maria José Freixinho, presidente da Assembleia Geral dos Bombeiros de Oliveira do Hospital, parabenizou a corporação que está “365 dias por ano ao serviço da população, com entrega e resiliência”.
O comandante, Emídio Camacho, iniciou a sua intervenção afirmando que “mais de um século de história não se constrói sem dedicação, sem sacrifício e sem um espírito de missão”. Prestou homenagem a todos os que contribuíram para a instituição, cujo “legado é a base sólida sobre a qual se constrói o futuro”. Camacho expressou o seu “sincero agradecimento” aos bombeiros e bombeiras, reconhecendo a sua “determinação, espírito de entrega e coragem”. “Sois a alma desta casa”, disse.
Também o comandante considerou que o setor vive “tempos particularmente exigentes, sobretudo no que diz respeito à captação do voluntariado”. Desta forma, sugeriu a criação de “incentivos locais para atrair e fixar novos elementos”. Defendeu “um plano estruturado de reequipamento e um modelo de financiamento estável”.
De volta a “casa”, a representar o Comando Sub-Regional de Coimbra da Proteção Civil, o segundo comandante, Nuno Seixas, que teve “a honra de, ali, servir durante 25 anos”, sublinhou o espírito de missão dos bombeiros oliveirenses que, nos últimos anos, tem enfrentado “momentos duros”.
“Ser bombeiro não é só vestir uma farda. É estar disponível, é servir, é ajudar, mesmo quando ninguém vê, mesmo quando custa, mesmo quando dói. É nunca virar a cara à luta. E é, acima de tudo, nunca desistir de quem precisa de nós”, disse, garantindo que “podem contar com o Comando Sub-Regional de Coimbra”.
O presidente da Federação Distrital, Luís Sousa, deixou um alerta contundente, afirmando que “estamos a viver um momento extremamente difícil”. Destacou, por exemplo, o aumento do preço dos combustíveis. “Em três semanas subiu 45 cêntimos”, lamentou, dando como sugestão a “indexação do preço à variação do combustível”. Por outro lado, alertou para a questão da contagem de tempo de serviço para a reforma e o atraso de pagamento por parte do INEM.
Por sua vez, a representar a Liga dos Bombeiros, Luís Gil Barreiros, classificou a Associação Humanitária como “grandiosa”. Num momento em que “alguns que querem matar os bombeiros”, o responsável garantiu que “lutará sempre para que isso não aconteça”. No seu discurso, Luís Gil Barreiros manifestou desagrado com alguns aspetos protocolares da cerimónia, acabando mesmo por abandonar as comemorações.
“Este é um dos concelhos que mais investe nos corpos bombeiros”
A defender que o concelho oliveirense é “dos que mais investe nos corpos de bombeiros”, o presidente do Município garantiu continuidade no apoio, deixando “expressa a vontade de aumentar o subsídio anual à Associação”.
Ainda no que diz respeito a medidas futuras, José Francisco Rolo adiantou que a autarquia está “a trabalhar” para um possível “regulamento de incentivos ao voluntariado”. Aliás, considerou que “os bombeiros voluntários são hoje a verdadeira espinha dorsal do dispositivo de proteção civil”.
Na celebração da efeméride, o autarca enalteceu os “homens e mulheres que aceitam colocar muitas vezes em risco as suas próprias vidas”. Elogiou o trabalho dos soldados da paz que “estão sempre na linha da frente”, destacando o seu papel nos incêndios de 2025 e no comboio de tempestades que “em menos de um ano deixaram um rasto de destruição”.
Reconhecimento e distinções




A sessão integrou a entrega de condecorações, promoções e distinções. O prémio Manuel dos Santos Gouveia Serra foi entregue ao bombeiro de 2ª Bruno Santos. Amadeu Santos, Nuno Moura e Marco Brito foram condecorados com a medalha de Assiduidade de 25 anos de Bons e Efetivos Serviços.
António Guilherme lembrado e homenageado pelo seu exemplo de vida e dedicação
A memória de António Guilherme foi evocada com emoção. O bombeiro, que ficou tetraplégico após sofrer um acidente ao serviço desta corporação e que morreu no final do passado mês de janeiro, foi lembrado por muitos dos presentes. Foi destacado o seu exemplo de dedicação, resiliência e compromisso com a comunidade, mesmo perante adversidades extremas.
Adelaide Freixinho recordou o percurso do bombeiro, sublinhando que “entrou jovem nesta casa” e que a sua carreira foi tragicamente interrompida. A presidente da Assembleia Geral propôs um um minuto de silêncio em sua homenagem.
Também Arménio Tavares destacou a dimensão humana e o legado de António Guilherme, afirmando que “nunca perdeu o sentido de continuar a ser útil aos seus bombeiros”, mesmo após mais de 32 anos “confinado a uma cadeira de rodas”. Ao longo desse período, manteve-se ativo em projetos e iniciativas, com o objetivo de angariar fundos para a associação. Entre as suas múltiplas iniciativas, destacou-se pela criação da Associação dos Deficientes de Oliveira do Hospital. “Todos lhe ficamos eternamente gratos”, disse Arménio Tavares.
Na mesma linha, José Francisco Rolo sublinhou que António Guilherme “nunca desistiu de ser bombeiro no sentir e nunca desistiu de ser cidadão”, sendo uma figura inspiradora pela sua persistência. Recordou ainda o seu papel como fundador e presidente da associação local de deficientes e a sua luta constante contra as barreiras arquitetónicas, em defesa de uma sociedade mais inclusiva.
Descrito como “um bombeiro de todos os dias, um cidadão empenhado na vida da sua cidade e da sua comunidade”, António Guilherme foi homenageado como alguém que marcou profundamente a instituição e o concelho. “Bem haja, António Guilherme, por aquilo que nos trouxeste”, concluiu Rolo.
































