“Eu falhei”. Esta é a frase que mais repete Pedro Figueiredo depois da tragédia. Uma faúlha tocou no sofá da varanda de casa e foi o suficiente. As chamas destruíram por completo a habitação pré-fabricada, localizada na fronteira entre as freguesias de Avô e Vila Pouca da Beira.
O produtor de leite, que “não está habituado a falhar”, assume culpa pelo que aconteceu. Perante aquele monstro que voltou a devastar o concelho de Oliveira do Hospital, Pedro ainda se lembrou de “ir tirar a roupa que estava estendida”, mas foi no sofá onde dorme um dos seus 15 cães que o fogo pegou e se alastrou. À Rádio Boa Nova, o homem que outrora foi soldador disse que “a casa esteve a arder durante duas horas”. “Passado uma hora e pouco explodiu”, contou, adiantando que teve de fugir.
Na Quinta da Cruz de Pedra, as chamas levaram tudo menos o que mais importa: os seus animais. Perante a fúria das labaredas, a prioridade foi salvar as 180 ovelhas e os seus cães.
Com uma vista privilegiada para o incêndio que vinha do concelho vizinho de Arganil, Pedro logo percebeu que “ia chegar rápido”. Apesar de ter “tudo limpo e tudo regado”, não foi possível travar a tragédia. Ainda assim, valeram-lhe os amigos, os pais, com cerca de 80 anos, e a GNR que lutaram o máximo que conseguiram. De resto diz que “ninguém aqui veio”. Revoltado, Pedro defende que “há bons bombeiros e profissionais”. “A Proteção Civil é que não deixa trabalhar quem sabe trabalhar”, frisou, lembrando que “antigamente os bombeiros mandavam neles próprios”.
Onda de solidariedade vai dar nova casa e abrigo para animais
No rescaldo do grande fogo, Pedro agradece ao “amigo Rui” do Centro de Recolha Oficial Animal de Oliveira do Hospital que “apareceu com elementos do IRA”. Foram até ali perceber se era necessário resgatar animais ou prestar-lhes assistência e foram surpreendidos com o instinto animal. Todos se salvaram e uma cadela refugiou-se dentro de uma mina com os seus filhotes.
Diretamente de Lisboa, o conhecido grupo “Intervenção e Resgate Animal” veio ao socorro dos animais de Pedro. A solidariedade que lhe está associada permitiu ainda mais. Depois de apelar aos portugueses para contribuírem, passadas 24 horas, o IRA afirmava nas sua redes sociais: “Podem parar com os donativos. O Pedro vai ter uma casa”.
Em simultâneo, ainda na noite daquele trágico dia, o primo de Pedro, o Diogo, lançou uma campanha online de angariação de fundos. Passados poucos dias, o valor atingido chegou aos 65 mil euros.
Curiosamente, um quadro do Benfica foi o que restou no meio dos escombros. A imagem de Pedro a segurar tal objeto percorreu vários órgãos de comunicação social e chegou à Fundação Benfica que “entrou em ação, acompanhando a situação em particular junto da autarquia e das entidades competentes, no sentido de prestar toda a colaboração onde necessário e pertinente”. O clube endereçou a Pedro o convite para assistir ao próximo jogo em casa, na Luz, sendo recebido na tribuna presidencial, e “sentindo, seguramente, o caloroso afeto de todos os Benfiquistas presentes no estádio e fora dele”. “Claro que vou”, diz Pedro que aguarda ansiosamente por esse momento.