Não sei para onde vou,
Não sei para onde vou
– Sei que não vou por aí
(José Régio, «Cântico Negro», 1926)
O Chega é um partido que quer suprimir o regime democrático em Portugal!
Quem considerar esta informação excessiva e inverosímil leia o livro do jornalista Miguel Carvalho, Por Dentro do Chega. A face oculta da extrema-direita em Portugal.
É uma obra talvez demasiado longa e exaustiva, que derivou de uma investigação jornalística séria, objetiva (mas não neutra) e desassombrada. Para a escrever, o autor entrevistou muitos dirigentes, militantes e eleitores do Chega. Acedeu a documentos públicos e privados do partido. Pesquisou várias dezenas de periódicos. Escrutinou o «admirável» mundo das redes sociais. E enquadrou as informações obtidas com a leitura de diversos livros, teses, artigos e estudos académicos.
Para os mais distraídos ou menos informados, que ainda têm dúvidas sobre os propósitos do Chega, a leitura deste livro é esclarecedora.
Resumindo e simplificando.
O Chega é um partido «pega-tudo» (catch-all party) desprovido de um corpo ideológico coerente. É uma “embrulhada caótica” composta por arrivistas e grupos político-ideológicos radicais: neofascistas, neonazis, salazaristas, racistas, xenófobos, misóginos, ultranacionalistas, antieuropeístas, anticomunistas arrebatados, cristãos fanáticos de igrejas evangélicas e da Opus Dei, maníacos de teorias da conspiração, anarcocapitalistas, censores das aulas de educação sexual nas escolas, bolsonaristas, trumpistas e enjeitados de outros partidos (PPM, CDS, PSD, PS, PCP e BE).
Os protagonistas destes diferentes grupos digladiam-se dentro do Chega, numa guerra surda, para seduzirem o seu chefe, obterem lugares relevantes no partido e cargos públicos nas hierarquias dos órgãos políticos locais e nacionais.
Evidentemente, os partidos tradicionais do espectro político nacional também têm dirigentes que os envergonham. Mas nos dirigentes do Chega os casos de fraude, roubo, difamação, endividamento, insolvência, agressão, segregação racial, estigmatização das minorias, incitamento ao ódio, negacionismo, caciquismo, machismo ou culto do chefe constituem um padrão.
É verdade que existem no Chega militantes de base e eleitores para quem a vida é um «vale de lágrimas». Estes setores sociais proletarizados acham que já nada têm a perder e, por ingenuidade, ignorância, frustração ou desesperança, creem que o chefe da gente esdrúxula do Chega pode e vai forjar um Portugal novo, puro, ético, social, expurgado de corrupção!
Importa que os defensores do sistema democrático dirijam as suas preocupações para estes cidadãos, que, aliás, seriam as primeiras vítimas de um governo do Chega.
O Chega é um partido unipessoal. O chefe do Chega, demagogo-mor, «predador narcísico» (como lhe chamou Gabriel Mithá Ribeiro, dirigente do Chega entretanto caído em desgraça), maquiavélico, absorto pelo seu projeto de poder pessoal, paira acima das tribos do partido. Manipula a corte, usa, elogia, despreza ou recompensa os seus aduladores, na exata medida dos seus interesses, enquanto persuade as massas que foi escolhido, pelo povo, por Deus e pela Virgem Maria, para salvar Portugal.
O discurso vazio, mas vociferante e mitómano do chefe do Chega tem, portanto, os seus adeptos, a saber: pobres e classes médias proletarizadas persuadidos de que o novo messias lusitano lhes vai proporcionar a ressurreição das suas vidas; ressentidos da vida que já nada esperam do futuro; jovens endrominados pelas mensagens mágicas e burlescas multiplicadas pelo Chega nas redes sociais (jovens esses que ignoram que os autoritarismos e totalitarismos de outrora afundaram sempre a humanidade em conflitos fratricidas, guerras e genocídios como o Holocausto); e, obviamente, dirigentes do partido (onde se incluem arrivistas gananciosos submersos em problemas financeiros, profissionais e judiciais) que idolatram, desvairadamente, o seu chefe, na ânsia de ressarcirem as suas vidas mais ou menos desestruturadas com as benesses do poder.
A conjuntura histórica parece favorecer o Chega, pois a onda populista nacionalista autoritária contaminou muitos países do mundo e ameaça crescer na Alemanha, na França, na Espanha, na Inglaterra…
Por isso a democracia enfrenta perigo de morte! Pois está na natureza do Chega e do seu falso messias engendrarem uma ditadura, como, na fábula de Esopo, estava na natureza do escorpião matar a rã.
Tal perigo está bem demonstrado nos programas incoerentes e inconsequentes do partido (que parecem um cardápio sortido de um restaurante, que oferece aos seus comensais pratos para quase todos os gostos). No seu modus operandi (culto da personalidade, legalização e financiamentos duvidosos, lutas fratricidas, desinformação, difamação dos opositores, estigmatização das minorias desprezo pelo parlamento…). Nos grupos políticos extremistas que o apoiam. Nos comportamentos disfuncionais e nas retóricas coléricas e polarizadoras do seu chefe e dirigentes, que se apresentam como «portugueses de bem» e aviltam os seus adversários. Nas máximas vertidas nos seus discursos e propaganda: «50 anos de corrupção» (como se o Estado Novo – aliás, como todas as ditaduras – não tivesse sido profusamente corrupto); «isto não é o Bangladesh»; «os ciganos [mas não os “cheganos”] têm de cumprir a lei»; «era precisos três Salazares para pôr ordem nisto [Portugal]»…
Se as forças democráticas desistirem de se unirem em torno de um novo discurso de esperança. Se os jornalistas abdicarem de fazer o seu trabalho. Se a educação familiar e pública não conseguir furar as bolhas digitais onde navegam os jovens para propagar um discurso luminoso de verdade, fraternidade, igualdade e liberdade. Se o projeto da união europeia falir, rebentar na Europa uma grande crise política e económica e a austeridade e o desemprego dispararem, podemos vir a ser governados, num futuro distópico, pelo tirano do Chega e os seus sequazes.
A democracia é o único sistema político que admite no seu seio forças que a podem reformar ou destruir. Como escreveu Miguel Carvalho num trecho do seu livro que reproduz uma frase do historiador britânico Simon Schama: «um dos paradoxos da democracia é a capacidade de gerar o seu próprio déspota».
Em suma: o livro de Miguel Carvalho é uma «pedrada no charco». O trabalho árduo, cívico e especialmente corajoso do autor vertido neste livro deve ser interpretado como um grito de alerta, como um aviso pedagógico dirigido aos cidadãos que amam os valores da democracia.
Democracia que – como terá dito Churchill, em 1947, no parlamento britânico – «ninguém afirma que seja perfeita ou plenamente sábia […]. De facto, […] é a pior forma de governo, excetuando todas as outras que já foram experimentadas».
Luís Filipe Torgal






























