A sessão solene comemorativa do 25 de Abril, em Oliveira do Hospital, reuniu responsáveis autárquicos e representantes partidários num conjunto de intervenções marcadas pela evocação das conquistas da Revolução dos Cravos, mas também por fortes alertas quanto aos desafios atuais à democracia, à coesão social e ao desenvolvimento do território.
Na sua intervenção, o presidente da Câmara Municipal, José Francisco Rolo, classificou o 25 de Abril como a “data maior da nossa democracia” e uma “lição viva da história recente de Portugal”, sublinhando que “de facto não podemos ser escravos”. Num discurso centrado na atualidade, apontou que vivemos “tempos particularmente difíceis e incertos”, alertando para o crescimento de “discursos de intolerância, de ódio, de xenofobia” e para uma sociedade cada vez mais “vulnerável à mentira e à deturpação dos factos”.
O autarca referiu ainda que “os efeitos dos vários conflitos sentem-se também no nosso dia a dia”, mas garantiu que, apesar desse contexto, o município “continua a responder às expectativas da população”. Defendeu que “é na proximidade, na solidariedade e no respeito mútuo que se constrói uma democracia viva” e lembrou que “Abril ensinou-nos que a transformação positiva do país é possível” e que “a liberdade vale a pena”.
“Hoje, mais do que nunca, não podemos dar a democracia por garantida. Cabe-nos a nós defendê-la, fortalecê-la e transmiti-la às gerações futuras com o mesmo espírito de esperança que marcou aquele dia inesquecível de 1974”, alertou.
No que diz respeito ao poder local, garantiu que “as pessoas serão sempre a prioridade” e sublinhou que a autarquia é “uma Câmara municipal de porta aberta”.
No plano das reivindicações, destacou a conclusão do IC6 como uma prioridade estruturante, afirmando que “não é aceitável que o concelho continue a aguardar eternamente pela conclusão deste projeto”. Considerou que é “uma dívida com mais de 30 anos que penaliza a atratividade do território”. Referiu ainda investimentos estratégicos em curso, com destaque para a aprovação do financiamento para a construção das futuras instalações da ESTGOH.


Também o presidente da Assembleia Municipal, José Carlos Alexandrino, centrou a sua intervenção na memória e no legado de Abril, recordando conquistas como “o Serviço Nacional de Saúde, o direito à educação, a dignificação do trabalho e as autarquias locais”. Sublinhou que “Abril abriu um novo capítulo na história de Portugal” e que representa um “símbolo de um Portugal melhor”. Defendeu que é “hora de assumir a responsabilidade de deixar um Portugal melhor”.
Como convidado de honra, o deputado constituinte António Campos trouxe um testemunho pessoal marcado pela vivência da ditadura, recordando que durante 37 anos foi “escravo da vontade dos ditadores”, “escravo dentro do próprio país”. Evocando o passado, descreveu “um país de miséria, de fome, de analfabetos”, contrastando com os desafios atuais. Alertou que “hoje vivemos momentos em que a democracia está em causa” e que as novas formas de condicionamento social passam pelas novas tecnologias. “Hoje os jovens são vítimas da censura do algoritmo”, disse.
Numa crítica direta ao sistema político, afirmou que “os partidos também estão a falhar”, acusando-os de “discutirem muito o poder e muito menos os problemas e as sociedades”.
Representantes partidários apontaram desafios da democracia em tempos difíceis




Entre os representantes partidários, João Abreu, da CDU, destacou que “o poder local democrático foi uma das conquistas mais significativas de Abril” e criticou comportamentos políticos atuais, referindo que “boçais na Assembleia da República mostram, com posturas descaradas e arrogantes, o que nos podia esperar se chegassem ao poder”. Condenou ainda discursos de ódio, afirmando que “os que hoje destilam ódio contra os imigrantes desrespeitam milhões de portugueses que tiveram de abandonar as suas terras sem horizonte”. Num tom evocativo, apelou aos valores de Abril: “Ao ódio e à intolerância, opomos a ‘Grândola, Vila Morena’, terra da fraternidade”. “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”, frisou.
Já Sebastião Barbosa, do CDS-PP/ NC – Oliveira, o Motivo, adotou um tom crítico sobre a situação do país. Reconhecendo que “o 25 de Abril de 1974 é um dia marcante na história contemporânea de Portugal”, considerou que é “poucas vezes utilizado para perspetivar o futuro”. Questionou diretamente: “Temos motivos para celebrar e para crer que somos livres?”. Defendeu que, apesar de alguns progressos, “este é um Portugal fraco, coxo, moribundo e injusto para com os portugueses”. “E se é verdade que dos aspetos globais todos vítimas, localmente há muitos dedos a apontar”, concluiu.
Pelo PSD, João Pedro Caseiro afirmou que “celebrar o 25 de Abril é uma responsabilidade e um orgulho”, recordando “gerações que não tiveram oportunidade de estudar, de ter cuidados de saúde dignos ou de falar livremente, quando sonhar era um luxo”. Sublinhou que “a liberdade não está garantida” e que “é um bem pelo qual temos de lutar todos os dias”. Apelou ainda a uma sociedade “mais tolerante e mais justa”. Considerou também que “o que temos não é perfeito, mas é incomparavelmente melhor do que tínhamos”.
Inês Henriques, em representação do PS e a mais jovem da sessão, destacou o simbolismo de poder participar livremente na vida democrática. “Poder estar aqui, poder discursar, ter voz, poder discordar — tudo isto é Abril”. Sublinhou que a sua geração “cresceu dentro das conquistas de Abril”, mas alertou para novos riscos. “Quando surgem discursos que exploram o medo, normalizam a intolerância ou procuram enfraquecer direitos e liberdades, ameaça-se a própria democracia”, afirmou. Defendeu ainda a importância da coesão territorial, afirmando que “cumprir Abril é garantir que viver no interior não significa ter menos oportunidades”, e lançou um desafio à sua geração para que “não olhe para a democracia como algo garantido”. “A melhor homenagem que podemos prestar ao 25 de Abril é nunca aceitar retrocessos”, defendeu.

































